Problema de Trump não é “moeda dos BRICS”, mas o sistema de pagamentos da China que dribla o SWIFT e desafia a supremacia do dólar no comércio global.
Enquanto o mundo se concentra na possibilidade de uma moeda comum entre os BRICS, a China avança silenciosamente em sua estratégia de reduzir a influência do dólar nas finanças globais. E o grande trunfo não é uma moeda, mas sim a arquitetura de pagamentos que Pequim está construindo. O sistema de pagamentos Cross-Border Interbank Payment System (CIPS) permite às instituições financeiras chinesas e estrangeiras realizar transações em yuans fora do sistema SWIFT, dominado pelos EUA.
O poder do CIPS
O CIPS não é uma ameaça abrupta ao dólar, mas sim uma alternativa mais silenciosa e técnica. Ele cria trilhos paralelos para a liquidação de operações financeiras, especialmente para o comércio com a Ásia, Oriente Médio e América Latina. Em 2024, o CIPS processou ¥175,49 trilhões (cerca de US$ 24,5 trilhões), um aumento de 43% em relação ao ano anterior, com 8,2 milhões de transações. Já em março de 2025, contava com 170 participantes diretos e 1.497 indiretos, alcançando 119 países.
A adoção do CIPS avança em todo o comércio exterior. O maior banco do Sudeste Asiático, DBS, registrou em 2024 um aumento de 30% nos fluxos de liquidação em yuans para exportadores chineses e crescente demanda de parceiros no Oriente Médio e América Latina. Isso mostra que empresas reais já estão otimizando custos e reduzindo riscos cambiais ao utilizar os trilhos criados por Pequim, mesmo com o dólar ainda predominando.
Os bancos centrais também estão se adaptando às mudanças. A exclusão financeira e o congelamento de ativos elevaram o risco de “armaturização” do dólar em 2022. Isso incentivou a construção de infraestruturas próprias, como o sistema SPFS da Rússia, que já expandiu sua rede para mais de 550 instituições em 24 países. Há avanços na interconexão funcional entre SPFS e CIPS, criando resiliência contra sanções.
O caminho para uma maior independência financeira
O crescimento do CIPS e de outros sistemas de pagamentos regionais significa que os países podem diversificar seus canais de pagamento e reduzir a capacidade coercitiva dos EUA. Isso não significa que o dólar perderá sua hegemonia imediatamente, mas sim que haverá mais opções para os países e empresas que queiram evitar a influência dos EUA nas suas transações financeiras.
Enquanto o debate público se concentra na possibilidade de uma moeda comum dos BRICS, a China está avançando em seu plano de reduzir a influência do dólar nas finanças globais. E o grande trunfo não é uma moeda, mas sim a arquitetura de pagamentos que Pequim está construindo.