O desempenho recente do dólar reacendeu o debate sobre sua força global. De janeiro ao fim de agosto de 2025, o Dollar Index (DXY) acumula queda próxima de 10,6%, refletindo expectativas sobre juros nos EUA e maior apetite por outras moedas.
Ainda assim, a moeda segue dominante em pagamentos e reservas, enquanto China e Brics testam rotas alternativas.
O DXY mede o dólar contra uma cesta de moedas como euro, iene e libra. Em 2 de janeiro, o índice rondava 109 pontos; no fim de agosto, girava perto de 98.
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A variação captura, de um lado, o ajuste nas apostas para cortes de juros e, de outro, o impacto de políticas comerciais mais duras.
Projeções de bancos e casas de análise apontaram alívio adicional do dólar ao longo de 2025, ainda que com volatilidade.
Enquanto isso, a agenda tarifária dos EUA ganha peso no cenário.
A administração Donald Trump ampliou tarifas de forma abrangente e enfrenta questionamentos nos tribunais sobre a base legal dessas medidas, que afetam cadeias de comércio e preços de importados.
O tema pode ter desdobramentos até 2026, mantendo a incerteza no câmbio.
Nos cofres dos bancos centrais, o dólar continua majoritário.
Dados do FMI indicam que a participação da moeda americana ficou em cerca de 57,8% no fim de 2024.
O euro aparece em segundo lugar, na casa de 20%, enquanto outras divisas dividem fatias menores.
Mesmo com leve recuo ao longo da última década, a primazia do dólar nas reservas permanece sólida.
Além do volume, pesa a liquidez dos ativos em dólar e a profundidade do mercado de Treasuries.
Foi esse ecossistema, somado à estabilidade institucional norte-americana, que consolidou o papel do dólar após a Segunda Guerra e atravessou o fim do padrão-ouro em 1971.
Nos pagamentos internacionais, a moeda americana também segue à frente. Em junho de 2025, o dólar respondeu por 47,19% dos pagamentos por valor na rede Swift.
Quando se exclui transações dentro da zona do euro, a participação sobe a 58,39%. Já o renminbi (RMB), da China, ficou em 2,88%, na sexta posição.
Os números mostram espaço para diversificação, mas confirmam a centralidade do dólar na infraestrutura financeira.
No eixo emergente, cresce o esforço para liquidar comércio em moedas locais e reduzir custos e riscos ligados ao dólar.
Na cúpula dos Brics realizada no Rio de Janeiro em julho, os países priorizaram a expansão de arranjos de pagamento e o uso de divisas nacionais.
Uma moeda comum não entrou na pauta.
A discussão incluiu iniciativas como o uso do sistema CIPS em operações bilaterais e projetos do Novo Banco de Desenvolvimento em moeda local.
O desenho de um arranjo unificado, no entanto, permanece distante.
Por outro lado, episódios recentes de sanções, tarifas e choques geopolíticos funcionam como catalisadores para que países busquem redundância em canais de liquidação e em ativos de reserva.
Ainda assim, a dispersão regulatória, a assimetria de mercados de capitais e o controle de capitais em grandes economias limitam a substituição rápida do dólar.
Para especialistas, a posição atual resulta de um processo de décadas.
“O dólar americano se tornou a principal moeda no comércio global devido à força econômica dos Estados Unidos, principalmente no pós-Segunda Guerra Mundial”, afirma Carla Beni, economista e professora da FGV.
O ponto de inflexão foi Bretton Woods, em 1944, quando a moeda foi ancorada ao ouro e ganhou a confiança de governos e mercados.
Mesmo após 1971, quando o presidente Richard Nixon encerrou a conversibilidade em ouro, o dólar preservou a centralidade graças a instituições estáveis, mercados profundos e à criação de pilares como FMI e BIRD, que sustentaram a arquitetura financeira.
Segundo Carla, “todos os países passaram a acumular reservas internacionais em dólares”, o que deu peso e estabilidade à moeda nas décadas seguintes.
A queda do DXY em 2025 e o avanço de agendas como a dos Brics reacenderam previsões sobre um mundo com menor dependência do dólar.
No entanto, os dados de reservas e pagamentos sugerem que a transição, se ocorrer, tende a ser gradual.
Como pontua Carla Beni, “o dólar ainda domina como moeda de reserva global”.
Ela acrescenta que o processo de diversificação é lento porque oscilações do dólar impactam o valor das reservas de outros países.
Além disso, para que outra moeda assuma papel equivalente, seriam necessárias condições simultâneas: confiança na estabilidade econômica e política do emissor, mercado financeiro líquido e profundo, aceitação ampla nas transações e integração às redes de pagamento.
Sem esse conjunto, a preferência por ativos em dólar tende a persistir.
Sinais relevantes virão de três frentes.
Primeiro, a trajetória de juros nos EUA e seu efeito sobre o DXY e os fluxos globais.
Segundo, a evolução de tarifas e barreiras — tema hoje no centro da política econômica americana — e como isso realoca cadeias e moedas de faturamento.
Terceiro, a engenharia institucional dos Brics e de outras coalizões: o êxito em operar sistemas interoperáveis e em ampliar mercados de dívida em moeda local pode reduzir, na margem, a demanda por dólares, sem eliminá-la no curto prazo.
Em síntese, o dólar passa por um teste real de resiliência, não de substituição imediata.
A pergunta que importa não é se ele deixará de ser a âncora do sistema, mas quanto de sua participação pode ceder a alternativas e em que velocidade — diante desse cenário, qual indicador você acompanharia primeiro: o DXY, a fatia do dólar nas reservas ou o avanço dos sistemas de pagamento alternativos?
