Quem acompanha a bolsa brasileira nesse ano pode ter a impressão de que os problemas se resolveram. O Ibovespa, índice principal da bolsa, acumula uma valorização de 20% em 2023, e algumas ações que vinham sendo duramente penalizadas pelo cenário de juros altos, como C&A, Magazine Luíza e Localiza, figuram entre as destaques positivos. Parece que as preocupações com inflação e com a situação financeira do país foram deixadas de lado. Mas essa é apenas uma parte da história. O mercado da renda fixa conta outra narrativa.
Juros altos: alerta para o cuidado
Os juros pagos pelos títulos públicos de médio e longo prazos continuam em patamares elevados, sinalizando que a apreensão com os desafios econômicos do país ainda é grande. Um bom exemplo são os títulos atrelados à inflação do Tesouro, os famosos IPCA+, que vencem em 2029. Nesses títulos, a taxa de juros ultrapassa 7,8% ao ano, um nível não visto desde 2023. Essa taxa, na verdade, reflete a expectativa que o investidor tem sobre os juros reais que permanecerão ao longo dos próximos anos.
O cenário é ainda mais preocupante para títulos com vencimentos mais longos. Os títulos com vencimento em 2035, por exemplo, pagam uma taxa próxima de 8%, similar ao patamar observado em 2016, ano do impeachment de Dilma Rousseff. E para os titoli que vencem em 2050, a taxa ultrapassa 7% há muito tempo.
Essas taxas altíssimas mostram que o investidor ainda enxerga diversos riscos pela frente, principalmente o cenário fiscal, marcado pelo aumento da despesa pública, que não foi resolvido e pode se agravar ainda mais em um ano eleitoral, como será o de 2026, e a inflação, que ainda preocupa, mesmo com os juros básicos (a Selic) em 15% há algum tempo.
A discordância entre mercados
Essa dissonância entre o mercado de juros e o mercado de ações não é exclusiva do Brasil. Nos Estados Unidos, por exemplo, os “treasuries”, títulos da dívida do governo americano, com vencimento em 10 anos, vendem a uma taxa de 4% ao ano, desde pelo menos 2023. Já nos títulos com vencimento de 30 anos, essa busca chegar a 5% ao ano, um patamar visto somente em crises severas, como a de 2008. Por outro lado, as bolsas americanas continuam estabelecendo novos recordes, impulsionadas pelas empresas de tecnologia, que há tempo navegam a onda da inteligência artificial. O S&P 500, índice que acompanha as ações de 500 grandes empresas americanas, subiu cerca de 14% neste ano.
A verdade é que essa dicotomia certamente acabará sendo corrigida em algum momento. Mas a pergunta que ecoa agora é: quem vai ceder primeiro, os preços das ações ou os juros? E enquanto essa resposta não aparecer, o investidor precisa lidar com essa contradição e ter especial atenção para não tomar decisões precipitadas.