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TUDO NOVO, DE NOVO NA GESTÃO

Especialista fala sobre a nova gestão para pequenas e médias empresas pós-pandemia.

 

A gestão empresarial para as Pequenas e Médias Empresas (PMEs) não mudou muito nos últimos 20 anos. Ao longo de todo esse tempo, nas consultorias em gestão, os fundamentos são os mesmos. Porém, a partir de março deste ano as coisas mudaram repentinamente, o que transforma o ato de fazer previsões em uma espécie de exercício de bola de cristal.

“Fazer uma projeção precisa do que vai acontecer no período do pós-quarentena para os empreendedores desse segmento e para as demais empresas é muita pretensão”, explica Haroldo Matsumoto, especialista em Gestão de Negócios e sócio-diretor da Prosphera Educação Corporativa, consultoria multidisciplinar com atuação entre empresas de diversos portes e setores da economia.

Contudo, nesta entrevista, ele compartilha com os associados do SAMPAPÃO algumas reflexões para ajudar no processo de retomada dos negócios no pós-COVID. Confira!

Revista IPC: Haroldo, aquela pergunta cuja resposta todo mundo quer saber: quando o comércio vai entrar no “Novo Normal”?

Haroldo Matsumoto: Bem, a pandemia não irá terminar em um dia específico. Não sou especialista em saúde, mas pelo que tenho acompanhado, o coronavírus atingiu apenas parte da população, e a imunização com efeito “rebanho”, quando mais de 70% já tiveram contato e desenvolveram anticorpos contra o vírus, está muito longe de acontecer. As vacinas, infelizmente, ainda não são viáveis. Por isso, a flexibilização e monitoramento do avanço da contaminação ditará as idas e vindas da quarentena e isolamento. Assim, ora os estabelecimentos abrem, ora podem fechar.

Mas, pelo menos, é possível vislumbrar o novo cenário de consumo?

Neste momento, o medo e insegurança imperam. Medo de contaminação, medo de perder a vida ou de perder um ente querido, medo do desemprego ou de perder renda. Existe um colapso total das pessoas. E isso, é claro, tem impacto no modo como elas irão consumir produtos e serviços daqui para frente. No pós-COVID, creio que teremos um tempo de adaptação e mudanças na rotina. Vivenciaremos uma mudança importante na forma como as pessoas irão trabalhar, como irão à escola, como vão se alimentar, como consumirão cultura e entretenimento… Em síntese, todas as atividades devem sofrer alguma adaptação tendo como foco seguir regras de higienização, distanciamento e a priorização das atividades remotas.

E a retomada dos setores e segmento vai depender muito da forma como eles foram impactados pela pandemia, não é mesmo?

Sim. Alguns foram duramente impactados, como as áreas de eventos, turismo, bares e restaurantes. Outros, como é o caso do segmento de higiene e limpeza, nunca cresceram tanto, devido ao crescimento da demanda, mesmo no meio da pandemia.

Na sua opinião, como a retomada se dará para as Pequenas e Médias Empresas? E como elas deverão orientar a gestão em função disso?

Com o plano de “retomada consciente” do governo do Estado de São Paulo, estamos assistindo a continuação do monitoramento da abertura ou de fechamento dos estabelecimentos, determinado pelo avanço ou diminuição da contaminação. Diante dessas premissas, vejo que a gestão das PMEs deve ser realizada dia após dia, com planos de curto prazo e análise de indicadores de receita, pagamentos, produção, estocagem, custos e equipe feitas com bastante critério. Por conta da abertura flexível, não se pode investir muito na produção com a certeza do escoamento dos produtos. Por outro lado, o empreendedor também não pode ser surpreendido por uma demanda maior e perder oportunidade de gerar receita. Por isso, é importante que todos os controles estejam à disposição de cada gestor para tomadas de decisão imediatas.

E, além da gestão, em que outras coisas as PMEs deverão focar sua atenção?

Deveremos trabalhar bastante nas ações de proteção. Telas de acrílico, faixas pintadas no chão indicando distanciamento, controle de entrada de clientes nos locais, dispensers de álcool gel acionado com os pés, cabines isoladas por pessoa ou por família, atendimento em domicílio e outras iniciativas devem ser executadas e divulgadas para que o cliente tenha confiança para consumir produtos e serviços da empresa.

Muita gente acredita em uma recessão no pós-pandemia. O que você acha?

Não há dúvida de que entraremos em uma recessão. Por isso, os produtos com apelo de preços menores e destinados ao consumidor de baixa renda têm potencial de consumo maior. Passamos pela mesma situação em 2014 e, pela experiência acumulada, sabemos qual caminho escolher agora. Temos bagagem para entender quais produtos e serviços precisam ser readequados de acordo com a propensão e poder aquisitivo dos clientes. Isso faz com que sejamos “cães farejadores” de desperdício e eliminadores de custos para manter os preços baixos. Temos recomendado para os donos de empresas clientes da Prosphera que não arrisquem investir em novos negócios neste pós-pandemia, pois além da demanda ser menor, há o risco de encarar concorrentes que estão fazendo de tudo para sobreviver e, por isso, corroem as margens que um iniciante não tem fôlego para enfrentar.

E qual o risco de “quebradeira” entre as Pequenas e Médias Empresas nesse “pós”?

Infelizmente, veremos que aqueles que não trabalham com boas práticas de gestão não vão resistir à crise. A pandemia só acelerou o processo, que, mais cedo ou mais tarde, iria acontecer, que é o fechamento de empresas conduzidas por pessoas que deixaram de lado o planejamento, o acompanhamento das ações, a tomada de decisões baseadas em dados, enfim, que não se valeram da gestão atenta do próprio negócio.

Em outras palavras, quem cuidou bem de sua empresa no período mais duro da crise do coronavírus vai se dar melhor.

Sim, é claro que também existirão boas notícias para elas. Veremos empresas que trabalham da maneira correta se reinventando e superando as dificuldades. O novo mundo que nos aguarda será muito diferente de 2019 e dos outros anos. A velocidade das mudanças já ditas há tanto tempo nunca esteve tão evidente. Empresas que utilizam plataformas digitais venderam mesmo com o isolamento social. Ao mesmo tempo, as videoconferências e o ensino à distância já provaram que o ensino tradicional pode ser
substituído.

Podemos dizer, então, que termos e conceitos como “proatividade” e “reinvenção”, entre outros, serão as palavras- -chave da gestão na retomada das PMEs?

Sem dúvida. Quando a tempestade passar, os indicadores começarem a favorecer a economia e o mercado der sinal de vida, essas empresas podem começar a acordar e retomar suas atividades aos poucos. Mas, na retomada pós-COVID, o empreendedor deve ter a mente aberta para o novo e experimentar outras formas de gerir sua empresa, sob o risco de que, se ele ficar “agarrado” à forma como a gestão era feita até poucos meses atrás, isso levará sua empresa a permanecer no passado. Em síntese, a empresa que mais bem se beneficiará é aquela cujo gestor segue a antevisão feita há por Alvin Toffler: “O analfabeto do século 21 não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender.”