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REINVENTANDO A ROTINA

Panificadores contam algumas de suas experiências bem-sucedidas em tempos de COVID-19.

 

Embora não tenha fechado as portas por ser considerado como atividade essencial, o setor de panificação e confeitaria teve que rever seu modo de funcionamento e se adaptar às novas exigências do consumidor e das autoridades de saúde durante a quarentena do novo coronavírus. Ao longo desse período, vários serviços oferecidos por elas tiveram de ser paralisados ou adaptados. E aí, “reinvenção” foi – e continua sendo – a palavra-chave para driblar a crise e garantir a sobrevivência dessas casas.

Com essa proposta, padarias que atuavam com serviços de bufê (café colonial e almoço) adaptaram os serviços para entregas de “marmitex” e cestas de café colonial por meio do delivery ou encomendas. Já o autosserviço, modalidade na qual o próprio cliente escolhe seu produto, teve que ser excluído das operações de padaria, sendo substituído pelo atendimento direto dos funcionários. Contudo, nada disso conseguiu impedir a necessidade de ajustes no que diz respeito à relação de trabalho com os funcionários, nem a inevitável queda no faturamento das panificadoras.

“Felizmente, não foi preciso demitir ninguém. Contudo, tivemos que contornar a situação com reduções de salário e na jornada de trabalho, bem como concedendo férias em períodos alternados para os membros de nossa equipe”, explica Custódio dos Santos Rodrigues do Vale, dono da Mooca Pães e Doces, padaria localizada na Rua Serra do Jairé, 808, no bairro da Quarta Parada, famosa na vizinhança pela qualidade superior de sua oferta de produtos e pelo excelente nível de atendimento dispensado aos clientes. “Já a questão da queda nas vendas foi muito difícil nos meses de abril e maio, embora tenha melhorado um pouco agora, em julho, quando conseguimos recuperar cerca de 80% do faturamento que registramos em janeiro de 2020, mês do ano, como se sabe, é mais fraco para os negócios, em função das férias escolares e do rescaldo dos gastos com o Natal”, complementa.

 

DELIVERY: TÁBUA DE SALVAÇÃO

Em tempos de COVID-19, o delivery funciona como tábua de salvação para muitos negócios de padaria. E o crescimento desse tipo de serviço tornou-se bastante notável nos bairros de ocupação considerada “mista”, ou seja, aqueles que mesclam o perfil de clientes tantos residenciais (moradores) quanto comerciais (trabalho).

“Nossa padaria está instalada em uma região bem próxima à Av. Paulista, com muitos escritórios, bancos e escolas, na qual se localizam também vários hotéis, centros de convenções, cinemas, teatros e shoppings centers famosos. E, por conta do movimento que eles proporcionam, atendemos a um enorme público de passantes, que meio que ‘sumiram’ durante a quarentena. Então, a intensificação do serviço de entregas foi a melhor solução que encontramos para suprir e minimizar essa queda na frequência do público. E enquanto não voltarmos à normalidade, vai continuar sendo assim”, avalia Noé Coutinho Rodrigues, proprietário da Madadayo Casa de Pães, da Rua Frei Caneca, 840, casa dona de uma ampla oferta de frios de qualidade e onde se fazem algumas das melhores tapiocas de São Paulo.

 

CLIENTES AINDA MAIS EXIGENTES

Quem também apostou suas fichas no delivery foi a Big Pão Express, padaria localizada na Av. Líder, 1.761, na Zona Leste da capital paulista, que, agora, no dia 14 de julho, completou 20 anos de atividades, e famosa por suas baguetes recheadas e forneadas no balcão, bem na frente do cliente. “Além das entregas, serviço que até então não tínhamos aqui, o que nos ajudou bastante a manter as nossas vendas foi a adesão à campanha do SAMPAPÃO ‘Na padaria tem desconto todo dia’, por meio da qual, a cada dia da semana, oferecemos um produto de fabricação própria com 50% de desconto. Nossos clientes adoraram!”, afirma Fábio Moreira, coproprietário da Big junto com seu pai Armindo. E, embora acredite que a retomada dos negócios depois do fim da pandemia será lenta e gradual, Fábio diz que ela será certa: “Afinal, a padaria é sempre a última a entrar nas crises, e a primeira a sair”, justifica, animado.

E falando em futuro, um traço marcante que os panificadores irão identificar facilmente entre seus clientes será o aumento dos níveis de exigência. “E isso vai acontecer com tudo que envolve o negócio, desde a cobrança pelo estrito respeito às condições higiênico-sanitárias, até chegar à questão dos preços praticados nas padarias. Em face às perdas e impactos deixados pela pandemia, os consumidores deverão passar cada vez mais a ajustar a distribuição de seus gastos dependendo das circunstâncias, porque para muita gente, infelizmente, os recursos financeiros ainda continuarão, pelo menos por algum tempo, comprimidos e limitados”, analisa Sandro Pregal, panificador que divide com seu pai Baldomiro o comando da Padaria Ponto Quente, da Av. Água Fria, 1.520, na Zona Norte de São Paulo, casa famosa na região não apena por seus pães, como também pela variada oferta de produtos, comidas e doces típicos portugueses, como alheiras, baguetes recheadas de bacalhau, pastéis-de-belém e rabanadas.