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ESPECIAL / O FUTURO DA COMIDA TENDÊNCIAS REAIS

A importância urgente e os benefícios de se aplicar tecnologia e inovação para alimentar o planeta no futuro ganha contornos cada vez mais evidentes.

O prognóstico de crescimento populacional para os próximos 30 anos indica que seremos 9,6 bilhões de habitantes no planeta até 2050. Com isso, a expectativa da Food and Agricultural Organization das Nações Unidas é de que precisaremos aumentar a produção mundial de alimentos em 70%, o que exigiria dobrar o desmatamento e levaria, por conta da pecuária, a um crescimento de 77% na emissão de gases geradores do efeito estufa. Portanto, está mais do que na cara que tais opções para gerar o aumento da quantidade de comida no planeta… Isso mesmo: NÃO SÃO opções! Até porque, em 2050, esperamos que a Terra ainda continue sendo um lugar habitável para os seres humanos, não é verdade?!

E aí você vai perguntar: “OK! Mas quais são, então, as opções e alternativas possíveis para a gente dar esse salto de volume e garantir aquele “ranguinho” gostoso na nossa mesa (e, sim, quem não espera viver até lá?!), bem como naquela dos nossos netos e bisnetos? E a resposta é uma só: INOVAÇÃO. Mais precisamente, inovação aplicada à tecnologia de produção de alimentos.

Evoluir nesse sentido, é claro, vai implicar vencer muitos desafios. Mas, não tem outro jeito, porque o tempo não vai parar de transplantá-los para a nossa realidade a partir de agora. O já citado exemplo da carne é um dos mais angulosos. Como, há alguns anos, já pontuou em seu blog o magnata e cofundador da Microsoft, Bill Gates, “produzir carne exige muita terra e consome muita água, o que gera um impacto ambiental substancial. Não há como fabricarmos carne suficiente para alimentar 9 bilhões de pessoas e não podemos pedir que todos se tornem vegetarianos. Precisamos de mais opções para produzir carne sem exterminar nossos recursos naturais”.

Porém, para nossa sorte, os alimentos evoluem. No caso específico da carne, diversos fabricantes brasileiros, seguindo uma onda que surgiu na Europa e nos Estados Unidos, já estão disponibilizando aos consumidores versões bastante atrativas, nutritivas e, acredite, saborosas do alimento, produzidas à base de vegetais, os famosos “plant-baseds”. Exemplo disso, são os hambúrgueres sem carne – mas com textura, cor e sabor similares ao hambúrguer de carne bovina – desenvolvidos pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), juntamente com uma empresa parceira, por meio de um projeto de inovação aberta, e que já podem ser encontrados no mercado. E como a inteligência aplicada, assim como a imaginação, não têm limites, outro item super interessante de produto substituto à proteína animal é o “Siriju”, que se assemelha ao bolinho de siri. O trabalho da Embrapa envolveu o tratamento da fibra de caju, com a adição de ingredientes que melhoraram as características sensoriais de sabor, aparência e textura da iguaria.

AMINOÁCIDOS PARA O MUNDO

Outra fonte promissora quando se fala do futuro da comida é a ciência dos aminoácidos, ligada ao uso e reuso consciente dos recursos naturais. Uma famosa multinacional japonesa da área de alimentos, por exemplo, tem obtido grande sucesso ao reduzir e, muitas vezes, até evitar em alto grau qualquer forma de desperdício, por meio da reutilização dos subprodutos resultantes do processo de fabricação de seus itens principais. Ou seja, cada coproduto criado na empresa acaba virando matéria-prima em potencial para utilização em outros processos e, em última análise, para a fabricação de outros itens. Explicando melhor: a empresa em questão tem como principal produto o tempero “umami”, produzido a partir de aminoácidos fermentados do melaço de cana-de-açúcar, do milho e do amido de mandioca, sendo que o coproduto desse processo é devolvido diretamente para os campos de plantio como fertilizante, mantendo um biociclo saudável e eliminando o desperdício.

Além disso, o processo para gerar aminoácidos a partir de fontes orgânicas alternativas também vem sendo estudado com afinco. De certa forma, a lógica para isso é bastante clara. Se, por exemplo, os aminoácidos forem obtidos a partir da mandioca, a mandioca acabará. Mas se pudermos obter aminoácidos de uma fonte orgânica que não seja normalmente consumida, a possibilidade de extinção dessa planta simplesmente acabará.

Fontes orgânicas alternativas para aminoácidos são fáceis de achar. Predominantemente, elas são a parte descartada de muitas das fontes vegetais que utilizamos na alimentação, como é o caso da palha de arroz e do bagaço de cana-de-açúcar. E a partir de um ponto de vista científico, por meio dos processos de tecnologia de conversão de biomassa em açúcar e fermentação, não é particularmente difícil obter aminoácidos dessas matérias-primas orgânicas alternativas. Porém, é óbvio que fazer isso em larga escala requer mais pesquisa, análise e avaliação de investimento.

Não é preciso dizer que uma mudança dessa magnitude não é algo que será feito da noite para o dia. A boa notícia, porém, é que organizações no mundo todo estão trabalhando para determinar “se” e “quando” as matérias-primas para produtos alimentícios poderão ser alteradas. Trata-se, portanto, de uma tendência real, cujos benefícios estão ficando cada vez mais claros.