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ENTREVISTA – PENSAR FORA DA CAIXA É POUCO – Pág.13

O futuro de qualquer empreendedor como você depende da análise correta – e, às vezes, exclusivamente pessoal –, que a gente faz das inúmeras variáveis que nos cercam. E, para isso, ousar, desafiar o senso comum e continuar aprendendo sempre com o mundo, com as mudanças e com você mesmo é absolutamente imprescindível. Porque para mudar e melhorar o mundo para você, é preciso melhorar a vida de todo mundo. Simples assim.

Escritor, empreendedor, mentor, palestrante, “Cidadão Emérito” pelo seu município – Vacaria, no Rio Grande do Sul –, Mauricio Benvenutti ajudou a transformar um pequeno escritório na XP Investimentos, uma das maiores corretoras independentes do Brasil. Quando a empresa já valia mais de um bilhão de Reais ele mudou para o Vale do Silício, na Califórnia/EUA, e agora é sócio da StartSe, a maior plataforma do Brasil para conectar empreendedores, investidores e mentores.
Nesta entrevista, Mauricio joga não um, mas incontáveis raios de luz sobre a iniciativa de empreender e de transmutar a vida das pessoas em algo muito, muito melhor, dando dicas valiosas como a necessidade de nos transformarmos em “autodidatas implacáveis” para acompanhar as rápidas mudanças do mundo atual, nos mantermos competitivos e na liderança de nossos negócios, questionando absolutamente tudo, com muita ousadia, usando a tecnologia a nosso favor, e nos dando sempre a chance de recomeçarmos a aprender, tendo sempre em vista o objetivo principal, que é melhorar a vida das pessoas. Com vocês, Mauricio Benvenutti!

REVISTA IPC: O MUNDO DOS NEGÓCIOS E A REALIDADE DO CONSUMO ESTÃO MUDANDO CADA VEZ MAIS RÁPIDO. O QUE FAZER PARA SE MANTER COMPETITIVO NOS DIAS DE HOJE?
Mauricio Benvenutti: Hoje em dia, tudo se torna obsoleto muito e cada vez mais rápido. Segundo o portal global de conteúdos Delloite Insights, a meia vida de uma competência é de cinco anos. Ou seja, tudo que eu aprendo hoje, em 2019, a partir de 2024, metade desse valor vai desaparecer. Então, a única forma para eu profissional ou empresa continuarmos na vanguarda daquilo que fazemos é nos requalificarmos constantemente. Tendo isso em tela, do meu ponto de vista, existem várias respostas para nos mantermos competitivos em face às mudanças. Mas eu diria que uma das principais é que a gente precisa, tanto enquanto pessoa física quanto jurídica, se tornar um autodidata implacável. Nos dias de hoje, precisamos exercer o hábito de aprender por conta própria, nos tornarmos ases, verdadeiras autoridades em aprender sozinhos e em ganhar conhecimento. Não existe mais hoje motivo para esperar a conclusão de um curso para se tornar melhor ou uma capacitação para evoluir. Hoje, uma pessoa com cinco minutos de pesquisa na internet é exposta aos conteúdos mais ricos e densos e profundos que existem sobre um determinado tema no mundo. Então, exercer o hábito de se capacitar por conta própria é fundamental porque a educação, o aprendizado é o único antídoto capaz de combater os efeitos das atuais transformações.

QUAL A REAL CONTRIBUIÇÃO DA TECNOLOGIA NESSES NOVOS TEMPOS?
A tecnologia tornou acessível a qualquer pessoa o que, no passado, era restrito aos governos, grandes empresas e pessoas com muito dinheiro. Hoje, uma pessoa com um celular conectado à internet nas mãos no meio do continente africano consegue acessar mais informações que o presidente Bill Clinton acessava quando governou os Estados Unidos há 20 anos. O acesso à informação é igual para todos, e a tecnologia contribuiu para democratizá-lo. Em outras palavras, a tecnologia contribuiu principalmente para transformar o que era escasso no passado em abundante no presente.

QUAIS AS HABILIDADES E COMPETÊNCIAS QUE UM EMPREENDEDOR TEM QUE OBSERVAR PARA SE MANTER NA VANGUARDA DAQUILO QUE EXECUTA?
Bem, nos dias de hoje tenho que causar impacto na vida das pessoas. Tenho, ainda, que olhar a próxima curva, ou seja, tenho que manter o que eu faço, mas ao mesmo tempo eu tenho que olhar qual é a evolução do meu trabalho, da minha carreira, da minha profissão, justamente porque o que eu vou fazer no futuro possivelmente vai ser muito diferente do que eu faço hoje. Questionar, em vez de ter resposta pronta também é fundamental nos dias de hoje. Outra dica importante é trazer as pessoas para dentro do processo produtivo, fazer “COM” elas e não simplesmente “PARA” elas, porque um dos maiores objetivos dessa história toda é melhorar a qualidade de vida delas em algum aspecto. A pessoa no check-out tem que ter saído melhor do que no check-in. Em outras palavras, no término de qualquer relacionamento com você, ela tem que sair melhor do que no início. Enfim, essas competências falam por si só. Tudo isso junto leva você a perseguir sempre a conquista daquela versão melhorada de si mesmo.

MAS ESSES SÃO PONTOS QUE, NEM SEMPRE, ESTÃO EM LINHA QUE O SENSO COMUM. OU NÃO?
Isso é verdade. Quando a gente observa essas empresas que hoje caem nas graças das pessoas, claramente a gente vê que elas nascem com um pé naquilo que “pode” e outro naquilo não que “não pode”, mas que ninguém disse que “não pode AINDA”. Ou seja, com um pé naquilo que “dá” e um pé naquilo que ninguém disse que “AINDA não dá”. Então, claramente as grandes oportunidades hoje não surgem mais do senso comum: ao contrário, elas surgem nas bordas, nos limites, nas fronteiras do senso comum. Essa é a única forma para que eu, enquanto profissional, consiga enxergar as oportunidades que hoje nascem nas fronteiras. Em outras palavras, tenho que me permitir nos dias de hoje ser mais desobediente. Tenho que ser mais questionador. Tenho que ser mais interrogador do ambiente. Essa é a única maneira de eu conseguir ser um profissional que destoa da média e da maioria. Você tem que se permitir ser desobediente. E ser desobediente faz bem. Desobedecer padrões, regras… Mas desobediência no sentido do novo, não daquilo que nos trouxe até aqui e, sim, naquilo que vai nos levar daqui para a frente. Então se a gente não ousar ser um pouquinho rebelde, usar um pouquinho nossa criatividade para construir soluções novas, dificilmente vai dar o passo à frente.

ENTÃO, NESSE SENTIDO, DISCORDAR PODE SER BASTANTE SAUDÁVEL?
Olha, quando muita gente discorda de algo, isso pode ser um bom sinal. Por quê? Por que isso pode indicar que você está tomando uma atitude, uma decisão que te afasta da média de mercado. Então, eu diria que uma das principais habilidades nos dias de hoje que profissionais e empresas precisam desenvolver, você tem que se permitir ser desobediente, inquieto, questionador, interrogador, porque só assim você consegue tirar, se afastar dessa média de mercado, dessa massa, desse comportamento mediano e consegue realmente criar algo inovador. Afinal, ideias todos nós temos.

OK! MAS IDEIAS TODOS NÓS TEMOS. COMO EU FAÇO PARA SABER SE AQUELA IDEIA EMPREENDEDORA QUE TENHO “TEM FUTURO”?
Olha, ideia, mesmo que seja uma boa ideia dentro das cabeças das pessoas, continua sendo uma boa ideia nas cabeças das pessoas. Não vale nada. Ideia mesmo que seja a melhor do mundo, na cabeça de alguém, vale zero. Eu costumo dizer que se você quer saber se a sua ideia tem um bom potencial de virar um produto, serviço ou solução, tente responder “Sim” a quatro perguntas. Pergunta Nº 1: A sua ideia é estranha? Porque as ideias que viraram bons produtos no início eram estranhas. Elas pareciam não fazer sentido. E quando você tem uma ideia que parece não fazer sentido, isso pode ser um bom sinal. Pergunta Nº 2: Ela está inserida no mercado crescente? Quando pensa numa ideia, muita gente só olha o tamanho do mercado, se o mercado é grande o suficiente para ser rentável. Mas tão ou mais importante quanto o tamanho do mercado é se ele cresce, porque se você estiver num mercado grande, mas que não cresce, isso é muito ruim, é o pior cenário. É o cenário que você vai ter que brigar pelo cliente da concorrência, o que é muito ruim. Agora, se você está num ambiente, num cenário, num mercado pequeno, mas que cresce, aí você tem cliente novo entrando todo dia, você tem demanda nova, esse é um cenário fantástico.

OU SEJA, É MUITO MELHOR VOCÊ ESTAR NUM MERCADO PEQUENO, MAS CRESCENTE, DO QUE GRANDE, MAS ESTAGNADO.
Sim. E isso leva você à Pergunta Nº 3: A sua ideia está inserida num mercado crescente e é capaz de monopolizar um pequeno mercado? Deixar isso claro na cabeça do empreendedor é muito importante, porque, em geral, no início, quando você cria algo você não pode querer dominar o mundo, uma vez que está apenas começando. Mas você pode quere dominar um mercado muito pequeno. Isso, sim, você consegue. E quando eu digo um mercado muito pequeno isso significa, às vezes pode ser o seu quarteirão, ou um determinado nicho de um segmento, ou um bairro da sua cidade. Mas ali você tem que se tornar um monopólio. Ali você tem que ser a referência. Por exemplo, eu quero criar um delivery de comida para o bairro onde eu moro. Quando você se propõe a criar isso, você tem que se propor a buscar criar um monopólio, onde, ou seja, aqui nesse bairro falou em delivery de comida, eu vou ser a única opção. Eu vou realmente fincar minha bandeira aqui e se tornar um monopólio. Foi assim que o Uber nasceu, foi assim que o Arbnb nasceu, foi assim que o Rappy nasceu. Então, você começar pelos nichos, pelas bordas, pelas tribos e você realmente criar um monopólio do seu produto para aquela tribo, para aquele nicho é fundamental para você expandir o seu negócio. E a última pergunta que você tem que se fazer para saber se a sua ideia “tem futuro” é com relação ao timing. O timing correto é agora? Por que dois anos atrás era muito cedo e por que dois anos à frente será muito tarde? Então, se você responder “Sim” a essas quatro perguntas, possivelmente essa tua ideia tem grandes chances de se transformar num bom produto ou serviço.