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ENTREVISTA – EMBRAPA MAIS PRODUTIVIDADE, POR UMA VIDA CADA VEZ MELHOR

Como a conectividade e a Agricultura de Precisão vêm transformando a realidade do campo para vencer desafios e atender às demandas da alimentação no futuro.

A inserção da tecnologia de informação no mundo rural está caminhando para muito em breve se tornar uma realidade em todas as propriedades rurais. Trata-se da denominada “Agricultura 4.0”, ou seja, o campo além de produzir alimentos, está próximo de produzir informações digitais, fornecendo ao produtor rural dados precisos sobre a produção em tempo real. É um cenário que se transforma a passos largos. O homem do campo, portanto, precisa se manter atualizado e correr atrás das novidades que estão transformando o meio agrícola. São drones, aplicativos, tablets, programas via satélite, enfim, diversas ferramentas digitais para que o homem do campo tenha todas as informações da sua lavoura na palma da mão.

O que é exatamente e que impactos essa verdadeira “revolução no campo” vai trazer para as nossas vidas, nossos negócios e para os clientes de nossas padarias? É o que Ricardo Inamasu, doutor em Engenharia,  pesquisador e coordenador da rede de Automação e Agricultura de Precisão do Departamento de Instrumentação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), explica aos leitores da Revista IPC nesta entrevista. Confira!

 

Revista IPC: Ricardo, com a população aumentando, como você analisa os principais desafios da agricultura mundial no que tange ao futuro?

Ricardo Inamasu: Há enormes desafios. Mas, talvez, o principal seja alcançar a sustentabilidade do sistema de produção em um panorama de mudanças climáticas. A importância na agricultura brasileira no cenário planetário é a possibilidade de expandir a produção, atendendo ao crescimento da população mundial, sem o aumento de área ocupada pela agropecuária. Ou seja, sem desmatamento.

 

E qual a importância da Agricultura 4.0 e da Agricultura de Precisão nesse processo? Os termos designam a mesma coisa?

São dois conceitos distintos. Diria que a Agricultura de Precisão é uma das habilitadoras da Agricultura 4.0. A Agricultura 4.0 é um conceito emprestado da Indústria 4.0, ou seja, da Quarta Revolução Industrial. Entretanto, diferentemente da indústria, não há ameaça de competitividade que demande um projeto de revolução. Ela empresta conceitos de novas tecnologias com base na internet e novos modelos de negócios para promover uma nova agricultura mais produtiva e sustentável.

 

Quais as ferramentas e/ou tecnologias a Agricultura de Precisão utiliza, e de que forma a conectividade auxilia efetivamente o produtor rural?

Praticamente todas as habilitadoras, exceto a impressão 3D, pois a produção animal e vegetal não é manufaturada, mas, sim, criada. Ou seja, há a “magia” da vida. Cientificamente falando, são fenômenos químicos e físicos que interagem com seres biológicos de forma muito complexa. O sistema de produção busca a melhor forma para permitir que a planta ou o animal possa expressar, da melhor forma possível, o seu potencial genético. A tomada de decisões, bem como o disparo de uma operação, no momento mais adequado, é estratégica para que esse potencial seja alcançado. As decisões devem ser baseadas em dados, em informações de melhor qualidade e na maior quantidade possível. E conectividade auxilia no fluxo desses dados e informações.

 

Além dos benefícios evidentes que ela proporciona ao agronegócio, quais são os benefícios que ela entrega para o consumidor final?

O melhor benefício é a informação. Ela empodera o consumidor a demandar produtos que melhor atendem à sustentabilidade social e ambiental, tornando-o mais consciente e responsável pelo futuro. Por outro lado, permite que um produtor seja valorizado ao empregar processos social e ambientalmente mais amigáveis.

 

Qual o atual nível de adesão dos produtores nacionais ao conceito e como ela vem evoluindo? O ritmo vem sendo ideal? E essa nova tecnologia é “cara”?

Os agricultores brasileiros são os mais ávidos por novas tecnologias, contrariando alguns preconceitos. A evolução poderia ser exponencial, porém a conectividade ainda é um grande obstáculo. Em termos de tecnologia da agricultura tropical, pode-se dizer que os agricultores brasileiros já atuam no “Estado da Arte”. Os recordes de produção são um bom indicativo disso. E o governo brasileiro tem se demonstrado parceiro nesse processo. Não há outro país que produza tão bem com duas ou até mais safras por ano em uma mesma área. E, respondendo à questão do custo, não existe tecnologia “cara”. O que existe é tecnologia inadequada.

 

Finalmente, de que forma você avalia a importância específica das padarias na ponta da cadeia de distribuição dos alimentos, que já vêm sendo produzidos dentro do conceito da Agricultura 4.0?

Acredito que elas contribuem e podem contribuir ainda mais valorizando os produtos, bem como promovendo a proposta de maior qualidade não apenas desses itens, como também a qualidade do ambiente e da saúde da humanidade.

 

Nesta época em que os alvos são móveis e difusos, a ciência e a tecnologia ocupam lugar importante para o desenvolvimento do País, em particular, da agricultura. A Embrapa desenvolveu um sistema de inteligência estratégica – o Agropensa – para monitorar os sinais de mudanças e as tendências de um futuro que chega cada vez mais rápido. Em nosso observatório, já detectamos a importância da automação e da Agricultura de Precisão para que o agronegócio brasileiro continue a bater recordes de produtividade, em harmonia com as questões ambientais. Trata-se de uma condição, não somente de um desejo. Não estamos em busca apenas de uma agricultura de precisão apoiada por máquinas e equipamentos desenhados para grandes empreendimentos.

É certo que isto existirá. Mas queremos mais. Queremos sistemas de gerenciamento de lavouras e criatórios que sirvam a grandes, médios e pequenos produtores; que lhes digam não apenas a fertilidade, taxa de lotação, adubação e produtividade médias de uma propriedade, mas sim a exata fertilidade, a exata taxa de lotação, a exata adubação, a exata produtividade e qualidade de cada setor diferenciável.

Trata-se de deixar de ver o campo e a propriedade como uniforme, enxergando e respeitando as diferenças. Queremos a aplicação racional de insumos, para reduzir riscos de degradação ambiental e maximizar o retorno econômico em todas as propriedades. Caminhar mais rapidamente na direção da sustentabilidade nos exigirá, cada vez mais, incorporar práticas precisas e manejo sítio-específico à produção agropecuária. A agricultura brasileira avançou como nenhuma outra na direção da sustentabilidade. Ao longo dos últimos 40 anos, por exemplo, fomos capazes de transformar grandes extensões de terras pobres e ácidas em terras férteis. Fomos capazes de desenvolver uma plataforma de práticas sustentáveis sem igual no planeta, no âmbito do que foi a primeira grande revolução da agricultura brasileira.

Agora estamos prestes a entrar na segunda grande revolução. E ela começa com a compreensão de que crescimento e progresso econômico não são incompatíveis com o conceito de sustentabilidade. Para rompermos as barreiras e entrarmos em outra revolução, teremos que lançar mão de todo um arsenal de tecnologias e conhecimentos. Os desafios à nossa frente são substanciais: mudanças climáticas; descarbonização da economia; sistemas integrados para aumentar eficiência; uso mais racional da água; urbanização gerando demanda por automação; sistemas que nos permitam usar insumos de forma inteligente; por fim aumentar a produção de alimentos para atender ao crescimento da população mundial nos próximos 30 anos.

O Laboratório de Referência Nacional em Agricultura de Precisão (Lanapre), idealizado e construído pela Embrapa, com apoio decisivo de emendas parlamentares no âmbito federal, está localizado em São Carlos(SP), e será uma plataforma poderosa para essa rede de profissionais. Nele vamos pesquisar e desenvolver equipamentos, sensores, componentes mecânicos e eletrônica embarcada. Teremos recursos inéditos como sistemas computacionais de geoinformática para processar os dados coletados em campo e orientar a gestão dos sistemas agrícolas, recursos que nos oferecem inúmeras possibilidades. Mas precisamos fazer mais. Buscaremos isso com afinco. E é muito bom que a ambição científica não tenha limites.