destaque, IPC 824

ENTREVISTA – A ÁRDUA BATALHA DOS CIGARROS Pág.22

Em entrevista exclusiva, presidente do SAMPAPÃO comenta as mais recentes conquistas das entidades envolvendo o tema da comercialização dos cigarros nas padarias.

 

Mais uma vitória do SAMPAPÃO! Depois de enviarem um protesto formal contra a política comercial das companhias de cigarro em relação às padarias – o que levou, inclusive, à suspensão das vendas do produto em 800 casas da capital paulista –, as entidades acabam de assinar um acordo com a Philip Morris, uma das maiores fabricantes do setor, que atendeu aos anseios dos panificadores no tocante ao aumento da margem de comercialização, que não passava dos 6,9%.

Essa boa notícia, além de outras considerações sobre o tema da venda de cigarros nas padarias, cujas arestas ainda precisam ser aparadas para o estabelecimento de um patamar ideal, são fornecidas nesta entrevista exclusiva com o presidente do SAMPAPÃO, Antero José Pereira. Confira!

 

Revista IPC: Sr. Antero, o que desencadeou o recente conjunto de ações empreendidas pelo SAMPAPÃO envolvendo a questão da comercialização dos cigarros nas padarias?

Antero José Pereira: Tudo começou com uma iniciativa de forma unilateral da Souza Cruz, que começou a entregar cigarros com preços fixados nas embalagens. Por não aceitar essa atitude provocativa da companhia, o SAMPAPÃO enviou a ela um ofício, registrando um veemente protesto.

E, pelo que sabemos, não foi a primeira vez que isso aconteceu.

É verdade. Entendemos que a volta dos preços nas embalagens do cigarro foi uma afronta e um desrespeito aos panificadores, que há muito tempo vendem esses produtos, apesar da insignificante margem de contribuição que eles deixam. Além disso, consideramos que isso constituía um desprezo à luta vitoriosa que os panificadores empreenderam tempos atrás, por meio do SAMPAPÃO, para, justamente retirar os preços dos cigarros das embalagens.

 

Quais os principais problemas ocasionados por essa atitude da empresa?

Os preços foram colocados nas embalagens foram reduzidos. E isso deixou muito claro o tratamento desrespeitoso daquela companhia para conosco, uma vez que, nessa atitude unilateral, estaria implícita a suposição de que o panificador receberia a redução de preço e continuaria a vender os cigarros por um preço maior. E, nesse particular, vale ressaltar que se houvesse descumprimento da lei que obriga a venda dos cigarros ao preço tabelado, isso não seria problema da Souza Cruz e, sim, do empresário de panificação, que, ao desrespeitá-la, teria que responder judicialmente por isso.

 

O que diz a lei com relação a isso?

A legislação impõe que vendamos o produto pelo preço de tabela, e não a colocação do preço na embalagem. Portanto, o procedimento da Souza Cruz foi totalmente desnecessário. Além disso, ficou claro que, como existe margem para redução do preço do cigarro, certamente seria possível melhorar a margem de contribuição do produto para as padarias que o comercializavam. Por tudo isso, encaminhamos o ofício à Souza Cruz para que ela retirasse imediatamente os preços das embalagens de seus cigarros, e substituísse os maços e carteiras já entregues nessa condição. E, no mesmo documento, pedimos à empresa que abrisse negociação para melhorar a margem de comercialização de todas as suas marcas de cigarros.

 

E efeito surtiu essa demanda à Souza Cruz?

Fomos prontamente atendidos pela empresa. Tivemos uma reunião com eles, que prontificaram a retirar os preços das embalagens de cigarros. Porém, não houve avanço no que dizia respeito ao aumento da margem de contribuição.

 

Que implicações negativas ou ainda desvantajosas ainda envolvem a comercialização dos cigarros nas padarias atualmente?

Além do problema bastante recorrente da violência e dos assaltos às padarias com foco nos pacotes de cigarros, temos a questão dos impostos, que não é menos preocupante. Em média, a margem bruta do lucro para comercialização dos cigarros em nossos estabelecimentos é de apenas 6,9%. Além disso, os descontos sobre esse percentual são muitos. Cerca de 95% das padarias do estado de São Paulo estão sob o regime de tributação do Simples Nacional e pagam impostos sobre o faturamento entre 4,5% e 7,8%, dependendo da faixa de faturamento da empresa: na primeira faixa do Simples, que são as casas que têm faturamento de até R$ 180 mil, igual o imposto é de 4,5%. Já na segunda faixa, em que se enquadram as padarias que faturam até R$ 360 mil, o imposto é igual a 7,8%. Isso sem falar nas taxas que são descontadas pelas operadoras de cartões de crédito, que variam de 1,5%, caso, a venda seja realizada via cartão de débito, até 3%, no caso das operações realizadas na função crédito. Em outras palavras, vender cigarros hoje nas padarias significa prejuízo.

E aquela velha argumentação dos fabricantes de que ter cigarros nas lojas ajuda a atrair clientes para as padarias? Ainda
é válida?

Conhecemos muito bem essa história de que o cliente entra na padaria para comprar cigarros, e acaba levando uma dúzia de pãezinhos franceses, algumas bandejas de frios e até mesmo um bolo. Mas não é porque o cigarro é atrativo que o comerciante tem a obrigação de vendê-lo sem lucratividade. Isso é pagar para termos prejuízo.

 

Mas parece que os panificadores acabam de receber uma boa notícia acerca de mais uma conquista bastante importante do SAMPAPÃO relacionada ao aumento da lucratividade na venda de cigarros nas padarias. O que aconteceu?

Bem, junto com a Associação da Indústria de Panificação e Confeitaria do Estado de São Paulo (AIPESP), acabamos de assinar um acordo com a fabricante Philip Morris, que atendeu aos nossos anseios no tocante ao aumento da margem de comercialização, condicionada ao atingimento de algumas faixas de aumento de vendas.

 

Como isso irá funcionar exatamente?

Na primeira faixa, a panificadora que atingir um aumento de 30% sobre o volume médio de vendas dos últimos três meses receberá um complemento entre a margem atual e a margem final para atingir os 10% de lucro. Esse complemento será pago em desconto em boleto ou bonificação em cigarros, à escolha do panificador, até o dia 10 do mês subsequente. Já na segunda faixa, a panificadora que atingir um aumento de 60% sobre o volume médio de vendas dos últimos três meses receberá um complemento entre a margem atual e a margem final para atingir os 12% de lucro. Da mesma forma, esse complemento será pago em desconto em boleto ou bonificação em cigarros, à escolha do panificador, até o dia 10 do mês subsequente.

 

E qual a abrangência desse acordo?

Ele é válido para todo o estado de São Paulo. A adesão será livre escolha do panificador na hora em que firmar o contrato com a Philip Morris, e somente terão direito a esse aumento de margem as panificadoras que atingirem uma das duas metas pactuadas com a empresa. Vale lembrar, ainda, que o contrato de adesão não é um contrato de exclusividade. Ou seja, o panificador não fica obrigado a vender cigarros apenas das marcas da Philip Morris.

 

Contudo, a celebração dessas conquistas que o senhor relatou aqui deverão ser apenas mais uma etapa vencida da luta constante da entidade envolvendo o tema, não é mesmo? Quais deverão ser os próximos passos dessa agenda?

Sem dúvida. Essas vitórias, que envolveram tanto a retirada dos preços das embalagens dos cigarros pela Souza Cruz, quanto o acordo com a Philip Morris, não encerram a batalha do SAMPAPÃO e da AIPESP em prol da defesa dos interesses dos panificadores paulistas e paulistanos com relação ao tema da comercialização dos cigarros nas padarias. Agora, pretendemos intensificar nosso foco na redução dos descontos feitos pelas operadoras de cartões sobre as vendas feitas nas funções “débito” e “crédito”, bem como ficar atentos e intervir positivamente nas discussões do Ministério da Segurança Pública, que, no final do último mês de março, determinou a instalação de um grupo de trabalho para discutir a redução dos impostos sobre cigarros no País, e que ainda foi criado com o objetivo de tentar reduzir o contrabando e os riscos à saúde que estariam associados ao consumo de produtos teoricamente de menor qualidade, como é o caso dos mal-afamados cigarros paraguaios. Ou seja, a luta continua!